Arábia Saudita poderá enriquecer urânio após acordo proposto com EUA, dizem especialistas
20/02/2026
(Foto: Reprodução) O presidente Donald Trump posa ao lado do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, durante sua visita à Casa Branca.
Mark Schiefelbein/AP/Arquivo
A Arábia Saudita poderá ter algum tipo de enriquecimento de urânio em seu território dentro de um acordo nuclear em negociação com os Estados Unidos, segundo documentos do Congresso americano e uma organização de controle de armas. A possibilidade levanta preocupações sobre proliferação nuclear em meio ao impasse atômico entre Irã e EUA.
Os presidentes americanos Donald Trump e Joe Biden tentaram fechar um acordo com o reino para compartilhar tecnologia nuclear dos EUA.
Especialistas em não proliferação alertam que a operação em solo saudita poderia abrir caminho para um eventual programa de armas, algo que o príncipe herdeiro do país já sugeriu que poderia buscar caso Teerã obtenha uma bomba atômica.
No ano passado, Arábia Saudita e o Paquistão — país que possui armas nucleares — assinaram um pacto de defesa mútua após um ataque de Israel ao Catar que teve como alvo integrantes do Hamas.
LEIA TAMBÉM: Os sinais de que os EUA podem atacar o Irã
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Na ocasião, o ministro da Defesa paquistanês afirmou que o programa nuclear de seu país “será disponibilizado” à Arábia Saudita se necessário, declaração vista como um recado a Israel, considerado há décadas o único Estado do Oriente Médio com arsenal nuclear.
“A cooperação nuclear pode ser um mecanismo positivo para reforçar normas de não proliferação e aumentar a transparência, mas o problema está nos detalhes”, escreveu Kelsey Davenport, diretora de política de não proliferação da Arms Control Association, sediada em Washington.
Segundo ela, os documentos levantam “preocupações de que o governo Trump não tenha considerado cuidadosamente os riscos de proliferação representados pelo acordo proposto com a Arábia Saudita nem o precedente que ele pode criar”.
A Arábia Saudita não respondeu imediatamente aos questionamentos feitos pela Associated Press.
LEIA TAMBÉM: EUA mobilizam maior poder aéreo no Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003, diz jornal
Relatório do Congresso descreve possível acordo
O documento do Congresso, também analisado pela AP, indica que o governo Trump pretende fechar 20 acordos comerciais nucleares com países ao redor do mundo, incluindo a Arábia Saudita. O contrato com o reino pode valer bilhões de dólares.
O texto afirma que concluir o acordo “promoverá os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos”, rompendo com políticas consideradas ineficazes e permitindo que a indústria americana recupere espaço diante de concorrentes estrangeiros. China, França, Rússia e Coreia do Sul estão entre os principais exportadores de tecnologia para usinas nucleares.
O rascunho prevê que EUA e Arábia Saudita firmem salvaguardas com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável por fiscalizar o setor nuclear. Isso incluiria supervisão das áreas “mais sensíveis à proliferação”, como enriquecimento, fabricação de combustível e reprocessamento.
A AIEA não respondeu de imediato aos pedidos de comentário. A Arábia Saudita é membro da agência, que promove o uso pacífico da energia nuclear e inspeciona países para garantir que não mantenham programas secretos de armas atômicas.
Para Davenport, a proposta sugere que, uma vez firmado o acordo bilateral de salvaguardas, “a porta estará aberta” para que o reino adquira tecnologia ou capacidade de enriquecimento de urânio — possivelmente até dos próprios Estados Unidos.
O enriquecimento, por si só, não leva automaticamente à produção de uma arma nuclear. Um país também precisa dominar outras etapas técnicas, como o uso coordenado de explosivos de alta precisão. Ainda assim, o processo abre caminho para a militarização, motivo das preocupações ocidentais com o programa iraniano.
Os Emirados Árabes Unidos, vizinhos da Arábia Saudita, firmaram com os EUA um acordo conhecido como “123” para construir a usina nuclear de Barakah com ajuda sul-coreana. O país, porém, renunciou ao enriquecimento de urânio — modelo considerado por especialistas como o “padrão-ouro” para nações que desejam energia nuclear sem riscos de proliferação.
LEIA TAMBÉM: Cresce temor de que possível ataque dos EUA ao Irã desencadeie uma guerra no Oriente Médio
Proposta surge em meio à tensão com o Irã
O avanço das negociações entre sauditas e americanos ocorre enquanto Trump ameaça ação militar contra o Irã caso não haja um acordo sobre o programa nuclear iraniano. A pressão militar vem após protestos nacionais no país, reprimidos com violência pelo governo, resultando em milhares de mortos e dezenas de milhares de detidos, segundo relatos.
O Irã sustenta há anos que seu programa de enriquecimento tem fins pacíficos. No entanto, países ocidentais e a AIEA afirmam que Teerã manteve até 2003 um programa nuclear militar organizado. O país também já enriqueceu urânio a até 60% de pureza — nível tecnicamente próximo dos 90% necessários para uso bélico —, algo inédito sem a existência declarada de um programa de armas.
Diplomatas iranianos citam declarações do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, como uma fatwa — decreto religioso — que proibiria a construção de uma bomba atômica. Mesmo assim, autoridades iranianas têm mencionado com mais frequência a possibilidade de buscar o armamento à medida que aumentam as tensões com os Estados Unidos.
O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, governante de fato do país, já declarou que, se o Irã obtiver a bomba, “nós teremos que conseguir uma também”.